Bem Vindo

Neste portal reúno alguns poemas que conjeturo serem interessantes a leitura para ruminação introjetória.

sábado, 11 de fevereiro de 2012

Não sei quantas almas tenho


 
Não sei quantas almas tenho.
Cada momento mudei.
Continuamente me estranho.
Nunca me vi nem acabei.
De tanto ser, só tenho alma.
Quem tem  alma não tem calma.
Quem vê é só o que vê,
Quem sente não é quem é,Atento ao que sou e vejo,
Torno-me eles e não eu.
Cada meu sonho ou desejo
É do que nasce e não meu.
Sou minha própria paisagem;
Assisto à minha passagem,
Diverso, móbil e só,
Não sei sentir-me onde estou.
Por isso, alheio, vou lendo
Como páginas, meu ser.
O que segue não prevendo,
O que passou a esquecer.
Noto à margem do que li
O que julguei que senti.
Releio e digo :  "Fui  eu ?"
Deus sabe, porque o escreveu.
 
[Fernando Pessoa]

sexta-feira, 8 de julho de 2011

Introdução à Reforma Protestante

  A Reforma Protestante foi um movimento de caráter ético-religioso que discorreu-se primordialmente na Europa em meados do século XVI; Surge no âmbito do Renascimento Cultural.
  Procurou atacar os liames ideológicos, bem como julgar criticamente alguns fundamentos transmitidos como forma de embasamento espiritual à prática de fé dos fiéis, admoestados e doutrinados providencialmente pela Igreja católica que manipulava e controlava o modo como os indivíduos deveriam acatar a tudo quanto fosse apregoado pelo clero; É sabido que o catolicismo foi a principal instituição hegemônica durante toda a idade média, exercendo de forma ferrenha o seu poder de influência sobre as pessoas, utilizando-se para tanto, de elementos de cunho místico, assinalando seu viés indutivo nas mentes das pessoas, que se amedrontavam com as ilusórias possibilidades de punição, caso não aderissem ao modelo de crença proposto; com essa tática, a instituição católica infundiu grande temor moral, e assim, pode controlar as ações das pessoas de forma utilitarista a fim de atingir o objetivo principal, que era o de granjear bens materiais dos fiéis, e como garantia, assegurar o estipêndio divino a quem doasse seus haveres, com isso, foi galgando muitos bens e posses dos prosélitos e adeptos; utlizava-se deste artifício 'inteligentemente', e como forma de enriquecer a instituição da igreja, mantendo muita gente na bitola da superstição religiosa.
  Iniciou-se com o ensejo consciencial por parte de Martinho Lutero, o grande mobilizador da reforma, enquanto movimento que visou efetivamente romper com os paradigmas instaurados pela cúpula católica medieval. Ele se revoltara com tamanha espoliação religiosa e foi um nobre defensor da espiritualidade pura, que deveria se suster pela Fé genuína, isto é, não manipulável e incontornável na terra. Reprovou veementemente a forma irrefletida como se dava a concepção de relação com Deus, regida pelo clero e desprovida de senso-crítico. Elaborou diversas teses condenando a superficialidade e incoerência dos principais dogmas sustentados pela instituição católica ao longo de seu império.

domingo, 26 de dezembro de 2010

Ser Poeta

Ser poeta é ser mais alto, é ser maior
Do que os homens! Morder como quem beija!
É ser mendigo e dar como quem seja
Rei do Reino de Aquém e de Além Dor!

É ter de mil desejos o esplendor
E não saber sequer que se deseja!
É ter cá dentro um astro que flameja,
É ter garras e asas de condor!

É ter fome, é ter sede de Infinito!
Por elmo, as manhãs de oiro e de cetim...
É condensar o mundo num só grito!

E é amar-te, assim perdidamente...
É seres alma, e sangue, e vida em mim
E dizê-lo cantando a toda a gente!

Florbela Espanca

Vocação do Poeta
Não nasci no começo deste século:
Nasci no plano eterno,

Nasci de mil vidas superpostas,
Nasci de mil ternuras desdobradas
Vim para conhecer o mal e o bem 
E para separar o mal do bem.
Vim para amar e ser desamado.

Vim para ignorar os grandes e consolar os pequenos
Não vim para construir a minha própria riqueza
Nem para destruir a riqueza dos outros.
Vim para reprimir o choro formidável
Que as gerações anteriores me transmitiram.
Vim para experimentar dúvidas e contradições.
Vim para sofrer as influências do tempo
E para afirmar o princípio eterno de onde vim. 
Vim para distribuir inspiração às musas.
Vim para anunciar que a voz dos homens
Abafará a voz da sirene e da máquina,
E que a palavra essencial de Jesus Cristo
Dominará as palavras do patrão e do operário.
Vim para conhecer Deus meu criador, pouco a pouco,
Pois se O visse de repente, sem preparo, morreria.
              Murilo Mendes

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

                       Excerto do Poema - O haver


RESTA ESSE constante esforço para caminhar [dentro do labirinto]


Esse eterno levantar-se depois de cada queda,


Essa busca de equilíbrio no fio da navalha,


Essa terrível coragem diante do grande medo


[e esse medo] infantil de ter pequenas coragens.


do poetinha brasileiro: Vinícius de Moraes.

sábado, 17 de abril de 2010

Pai nosso dos Mártires

Pai nosso
dos pobres marginalizados
Pai nosso dos mártires, dos torturados.

Teu nome é santificado
naqueles que morrem defendendo a vida.
Teu nome é glorificado
quando a justiça é nossa medida.
Teu reino é de liberdade,
de fraternidade, paz e comunhão.
Maldita toda violência,
que devora a vida pela repressão.

domingo, 11 de abril de 2010

As Pessoas do Pessoa

Não sei quem sou, que alma tenho.
Quando falo com sinceridade não sei com que sinceridade falo.
Sou variamente outro do que um eu que não sei se existe (se é esses outros)...
Sinto crenças que não tenho.
Enlevam-me ânsias que repudio.
A minha perpétua atenção sobre mim perpetuamente me ponta
traições de alma a um carácter que talvez eu não tenha,
nem ela julga que eu tenho.
Sinto-me múltiplo.
Sou como um quarto com inúmeros espelhos fantásticos
que torcem para reflexões falsas
uma única anterior realidade que não está em nenhuma e está em todas.
Como o panteísta se sente árvore (?) e até a flor,
eu sinto-me vários seres.
Sinto-me viver vidas alheias, em mim, incompletamente,
como se o meu ser participasse de todos os homens,
incompletamente de cada (?),
por uma suma de não-eus sintetizados num eu postiço."

Fernando Pessoa